A alguns anos que estamos ouvindo falar sobre o gargalo de infraestrutura que temos no Brasil. Para tentar corrigir o problemas programas como o PAC foram criados, porém não são raras as notícias de que as obras estão atrasadas ou não saíram do papel.
Muito se fala sobre o problema, mas será que se conhece o tamanho deste problema? Será que os milhões e milhões destes projetos serão o suficiente para modificar a realidade? O que a final é infraestrutura?
A grande maioria das pessoas pensam diretamente em entradas, portos, ferrovias, ou seja, investimentos em logística para escoamento da produção de grãos ou ainda pensamos em sistemas de higiene básico para populações de baixa renda.
Porém, como este blog tenta falar de ciência, administração e muitas vezes as duas coisas juntas, como podemos visualizar a infraestrutura em pesquisa no país hoje?
Casos como o incêndio do Butantan demonstram exatamente um retrato otimista do restante do país. Otimista?? Sim, infelizmente, otimista.
Estamos falando de um dos maiores institutos de pesquisa do mundo, com pessoas altamente qualificadas e que recebem verba da maiores agências de fomento do país. Verba para pesquisa que recebe em adicional, uma reserva técnica destinada exclusivamente a infraestrutura. Mesmo assim, ocorreu um incêndio por gestão ineficiente da segurança do local: sistema elétrico sem manutenção, sistemas de emergência totalmente antiquados e por fim, a utilização de métodos de conservação do material que já foi abandonado pelos mais modernos centros de pesquisa do mundo.
Entretanto, não podemos condenar somente a coordenação deste instituto, pois de maneira geral, esta a realidade de quase todos os centros de pesquisa do país. Até a dois anos atrás, o departamento em que trabalho em Botucatu, não poderia passar por uma chuva forte, pois a rede elétrica caia, deixar experimentos “overnight” no verão erá um risco de perder o trabalho de semanas. Além disso, inúmeros equipamentos queimavam ficando encostados por anos, sem verba suficiente para o conserto. Após a reforma este quadro melhorou, mas ainda não esta totalmente resolvido, já que todo o sistema do campus esta sendo renovado.
Devo enfatizar que estamos falando em um, apenas um, departamento de uma universidade no país inteiro.
Sem citar, novamente, o péssimo quadro das universidades, vou me arriscar a fazer algo, que sou totalmente contra, pois é comparar o incomparável!!!
Existe um “reagente” que é essencial e amplamente utilizado na Reação em Cadeia da Polimerase (PCR), o iniciador (ou “primer” em inglês). Este reagente é o responsável pela especificidade da região genômica que se pretende estudar. Muitas vezes este produto deve ser aperfeiçoado ou redesenhado, aumentando ou diminuindo o tamanho da região estudada ou ainda modificando sua localização. Pois bem, em um projeto científico de médio porte talvez tenhamos que refazer o iniciado 3 vezes, além disso podemos que ter que ampliar as análises e fazermos mais 2 pares de iniciadores. Por fim, utilizamos o serviço de encomenda 5 vezes. A empresa que sintetiza e entrega os iniciadores mais rapidamente no Brasil, promete realizar o processo em 15 dias. Assim, somente esperando os iniciadores, coisa muito básica em qualquer projeto, o pesquisador brasileiro aguarda 75 dias!!! Isso mesmo 75 dias!
Em países da Europa e da América do Norte este prazo é de 2 ou 3 dias, totalizando na visão mais pessimista 15 dias de espera.
Como disse no início, esta é uma comparação perigosa, pois são inúmeros fatores que colaboram para estas diferenças. Porém o fator preponderante é a infraestrutura do país e das próprias empresa que atende o mercado.
Assim, a pesquisa no Brasil, salvo em centros de extrema excelência e localizados em grande centros, sofre com o gargalo tão comentado por todos. Acabar com este gargalo irá colaborar com o desenvolvimento de muitas outras áreas, além do simples escoamento de grãos. Assim, em conjunto com a profissionalização da gestão da pesquisa no país, liberando o pesquisador para ele poder fazer oque ele sabe fazer de melhor (ciência!), podemos sim sonhar com um futuro onde a pesquisa científica no país, mude a realidade da população que a financia!