domingo, 10 de janeiro de 2010

O detalhe que esta faltando...

O Blog do Marcelo Leite do último domingo (03/01/2009), comenta artigo do mesmo autor na versão impressa da Folha de SP, sobre o pesquisador Mohamed El Naschie. El Naschie é um físico egípcio com um grande número de artigos publicados e citações. Nos últimos anos descobriu-se que grande parte de seus artigos são publicados em uma revista em que ele é o editor e que ele cita a si mesmo de maneira exagerada em seus artigos, colocando em dúvida sua reputação. Marcelo Leite relata com muita competência essa história, no entanto são outros os fatos que que gostaria de comentar.
Tenho o hábito de ler os comentários dos blogs que frequento(a maioria sobre ciência, porém não só) e na grande maioria das vezes o que o brasileiro critica é a falta de investimento em pesquisa no país (no blog do Marcelo Leite não é diferente). Porém minha dúvida sempre foi: será que se hoje tivéssemos verbas ilimitadas para pesquisas teríamos publicações de altíssimo nível, que realmente iriam mudar a realidade de nosso país? Sinceramente acho que não basta. Acredito que ter uma melhor infraestrutura para pesquisa, com pessoas bem remuneradas é essencial. Principalmente para segurar as melhores mentes no país. Porém, quantos são os casos de grandes projetos em que o dinheiro é consumido e não existe retorno? Não por resultados negativos, que é inerente ao ato de fazer ciência, mas por falta de um planejamento adequado do projeto e de um problema cada vez mais gritante, a mal formação de recursos humanos.
Dessa forma, na minha opinião o grande problema do Brasil, seja em pesquisa, seja em muitas outras áreas, é o fato de que temos poucos recursos humanos preparados para realizar a gestão, tanto financeira como estratégica de projetos. Além disso, estamos falando de uma classe, que para muitos esta além do bem e do mal, se os docentes, que são a elite intelectual do nosso país, não conseguem pensar estrategicamente, quem conseguirá? É exatamente neste ponto que mora nosso principal equívoco. Esta elite esta muito bem preparada para lidar com seus projetos de maneira científica, para isso que foram formados e por isso que recebem prêmios e tem inúmeros artigos publicados. Entretanto ao serem aprovados para seus empregos de professores/pesquisadores muitos passam a acreditar que não precisam de uma formação em gestão. Isso geralmente acontece por dois motivos: 1- somente se o docente fizer algo realmente grave, como roubar algo da instituição, ser pego e condenado por seus pares (já que todas as comissões de uma universidade são formadas pelos próprios docentes), ele será demitido (ainda sim existirão recursos) e 2- os fundos para pesquisa sejam as fundações de fomento estaduais, sejam os fundos nacionais, tratam o projeto de maneira isolada e a verba como se fosse a fundo perdido. Um bom exemplo disso é que caso um docente não tenha resultado algum após 24 meses de projeto, isso não impede de ter seu relatório final aprovado. Além disso, caso este docente tenha publicações que não sejam referentes ao projeto, neste mesmo ano, mesmo que ele seja coadjuvante, isso o qualifica para receber verba novamente.
Assim, é por esta razão, que casos como a reitora da USP no ano passado, cairão no esquecimento. O caso é corriqueiro dentro da Universidade, onde muitas pessoas tem seus nomes envolvidos em trabalhos sejam pelo empréstimo de um equipamento, seja para dar certo poder ao trabalho. Assim, muitas vezes um pesquisador que tenha grandes publicações no início de sua carreira e tenha conseguido montar um bom laboratório, estará sempre envolvido em publicações, pois poderá emprestar um equipamento (que é público!) ou estar em um trabalho sem nem mesmo imaginar do que se trata aquele trabalho.
Estes fatos corroboram com a ideia que a classe docente, apesar de muitas vezes administrarem alguns milhares de reais (e de dólares públicos), não precisam se capacitar para isso.
Sou contra a intervenção direta da iniciativa privada na pesquisa, principalmente se tratando de pesquisa básica. Porém, sou totalmente a favor que pessoas que administram o dinheiro público tenham formação especializada para isso e que respondam por sua mal utilização (a falta do retorno esperado). Além disso, conhecimento multidisciplinar só engrandece as instituições e talvez quando aplicarmos uma pitadinha de gestão privada na universidade, pode ser que o Brasil realize pesquisas que mudem a realidade de sua população mais rapidamente.

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